22 de junho de 2018

Nestes dias


Embora os dedos tremam
no segundo em que tocam a terra,
o feixe das manhãs
é amplo, é longínquo.

E os cheiros?
E os sonhos?

E as coisas que ficaram por dizer
antes sequer de te conhecer?

Tenho escopo de pássaro 
e alma de marinheiro.

É no céu que me guio
e no mar que me solvo.

Não sou vida, 
se não índole, inspiração e liberdade.

Tão inócuas, tão desprovidas.

18 de abril de 2018

Artéria


Leve, levemente,
Se pôs a alma dormente.
Nem o dia que começou,
esta inércia agitou.

Ao espelho vejo um corpo,
mas sem escopo.
No silêncio uma alma,
sem calma.

Vivo desolado,
numa gnose turva,
de peito e sonhos crivados.

Imagino um livro, 
molhado e rasgado pela chuva.
Tão eu, tão verdade.

Nada mais do que se disse:
É este sangue, é cada batimento.

Nada mais que a verdade
mostram o desespero e a solidão.

Índoles que correm e se esquecem
nos vasos e artérias deste doente coração.

8 de março de 2018

Ao Contrário


Num planeta tão longe do seu âmago,
em que todos os dias nos falta o tempo,
mas nos sobram preocupações e focos de conflito,
eu quero atravessar.

Na outra margem da vida há algo mais.

Existem risos, calor e esperança.

Há florestas, árvores e raízes.

Há olhares, gestos e poucos juízes.

Há mar, marés e marinheiros.

Há amor, dor e sentimentos verdadeiros.

Uma existência sempre plena,

contrapõe-se às insuficiências,
à embriaguez e ao vazio deste lado.

Um dia como se fosse o dia,

deixará para trás os dias e
Sol que a alguns queima a pele,
aquecer-nos-á a alma.

Se estou ao contrário?
Cada vez mais.

7 de janeiro de 2018

Philanthropie


Já com os pés num novo ano,
tantas foram as vezes em que me detive,
naquele que terminou,
cercado de dúvidas e pensamentos voláteis.

Vezes em que olhei para este Mundo,

tomado de violência, falsidade e exterioridades perversas
e me senti longe de «casa»
e da natureza que perfilho.

Nessa vaga de convulsões e dubiedades

compreendi que,
desta minha mania de ser quem sou,
não disponho, ainda que com isso sofra.

Permaneço comprometido com dois esteios:

O de, independentemente do destino, proteger e estimar os meus;
Bem como de, atípicamente, conservar fenómenos mentais próprios.

Assim, comecei 2018:


Pegando em algo que me era destinado, 

e desse fruto me privado,
junto de alguém
um pouco de felicidade semeei.

15 de junho de 2017

Errado (e mais)


Não me sabia,
não me encontrei.
Naquela poesia,
em cada hora que pousei.

Senti tanto,
que de tanto não quero explicar,
Sofri (e sofro),
e disso faço questão de lembrar.

Dirias errado,
eu explicaria feitio.
Pedias que fosse passado,
e eu pedia quem me traiu.

Em tanto que leio,
em mais que não entendo.
Novo, o tempo que veio,
porém, velho, o que me fica moendo.

Mas, das sombras da multidão,
dos dias de névoa,
um anjo apareceu
e clareou a escuridão.

Na pele áspera e fria,
se encostou uma mão.
E lentamente, dia após dia,
chegou ao coração.

Do mais, 
soube aprender,
que de ti jamais
me disponho a perder.


Para ti

Para quem mais,
não podia ser.