15 de junho de 2017

Errado (e mais)


Não me sabia,
não me encontrei.
Naquela poesia,
em cada hora que pousei.

Senti tanto,
que de tanto não quero explicar,
Sofri (e sofro),
e disso faço questão de lembrar.

Dirias errado,
eu explicaria feitio.
Pedias que fosse passado,
e eu pedia quem me traiu.

Em tanto que leio,
em mais que não entendo.
Novo, o tempo que veio,
porém, velho, o que me fica moendo.

Mas, das sombras da multidão,
dos dias de névoa,
um anjo apareceu
e clareou a escuridão.

Na pele áspera e fria,
se encostou uma mão.
E lentamente, dia após dia,
chegou ao coração.

Do mais, 
soube aprender,
que de ti jamais
me disponho a perder.


Para ti

Para quem mais,
não podia ser.


23 de março de 2017

Uma Década


Num ano em que assinalo uma década desde a fundação deste meu «canto», tenho 5 considerações a fazer.

I

Quando empreendi este espaço, tudo era diferente.
Era um miúdo, sonhador, firme e determinado em conquistar o Mundo. Culminava os meus estudos secundários, tinha começado a trabalhar neste ano e tinha os meus planos em marcha para o que se seguia em detrimento daquele ciclo.
No utópico pensée de um garoto; Tinha o Mundo a meus pés.

II

Perto de cumprir 20 anos, experimentei uma série de transformações, umas intencionais, outras naturais, que me marcaram. No seio familiar, no meu meio social, nas relações, nas convicções, nas minhas motivações... O meu Mundo movia-se e eu, irrequieto, atirava-me à sua descoberta, custasse o que custasse.

III

O oficio que escolhi mudou muito de mim e, assim, da minha vida.
Cresci, vi e aprendi como nunca em 12 anos de escolaridade ou 21 de vida. Não existem palavras, voltas que se possam dar ou teorias sobre o que conheci nesta "vida". Tenho graças a ela, aprendizagens eternas, histórias únicas e uma percepção (muito) mais humilde de todos os tópicos que se atravessam no meu percurso.

IV

Os anos passaram e compreendi que queria mais. Queria algo tão simples, mas tão precioso, como independência. Não que não a tivesse, mas desejava-la na verdadeira asserção e, porque o sonho comanda a vida, fui atrás dela.
Esse caminho, espécie de investigação ego-cientifica, levou-me a outros pontos, a outras lições. A whole new world...
Um Homem é tão só carácter e responsabilidade, A assunção do eu - ser. Questionar, ir a jogo, suar e lutar. Responder e assumir.

V

Hoje, 2017, à imagem da sociedade actual, onde silêncios se misturam com uma violência amoral sem escala, a minha vida encontra retrato nesta ideia de cisão.
Por um lado, a assolação deste momento inerte, por outro as ideias, a construção retomada e o projecto de independência cada vez mais consolidado, descrevem um quadro de perfeito contraste.


Nas aprendizagens, nos frutos da diferença e sua constante indagação, a ponderação colhe os corolários da experiência humana



Volvida uma década, o mesmo miúdo, com dúvidas diferentes (e em multiplicada quantidade), continua na luta

3 de novembro de 2016

Vivendo (e aprendendo)


Lembro-me de num episódio de infância,
em que terei ficado indignado com uma qualquer situação de injustiça que em mim se abateu,
de alguém mais velho, investido de uma experiência em muito superior,
sabiamente me dizer algo como: 
"Não dês importância, verás que ao longo da vida passarás por situações muito piores do que essa".

Verdade, nua e crua.

Vivo e aprendo, é certo, mas parece que nunca o suficiente para o que ainda há de vir.

Parece por vezes que tudo está ao contrário. 
Ou será que tudo está como tem de estar e ao contrário estou eu?

Sei lá. 

Lá sei eu o que vai no ADN destas gentes.
Lá sei eu onde andam Homens e Mulheres de verdade.
Só sei que pisam, e sujam, e esquecem, e cortam relações com a viúva da Integridade.

Hoje, em mais uma noite desta «vida» que escolhi,
em mais uma noite que me mantenho alerta,
para que todos os outros, que nem desconfiam da existência de Homens como eu,
possam ter uma noite de descanso e paz nas suas casas,
voltei a ter um destes embates,
que nos desassossegam, neutralizam e estremecem o espírito.

A vida não é justa.
Se não o é para mim, menos é para um Sírio ou um Venezuelano.
Mas raios partam se não há podridão maior que aquela que o ser humano permite cultivar dentro si e sem qualquer inibição ou pudor a deixa sair, contaminando o ar que é de todos. 


Mais brio.
Mais ética.
Menos sujeitos de interesses.

5 de março de 2016

Sui Generis


Prefiro não pensar em ti

Gosto da quietação de um final de dia
Prezo a paz da minha solidão interior

Foram anos gélidos e impiedosos
de mordaça na alma e temor pelos ossos

Sui generis, de resto

Para quê?
De que valia?

Jamais nos converteremos
em algo que não nos corre pelo sangue

A mim corre mais do que o principio
basilar da manutenção da compleição humana

Há por aqui vida, temperamento, energia,
cuidado, alegria e amor

E eu estou bem assim

17 de outubro de 2015

Os Tempos e Portugal


Tenho dito, a quem me ouve, a quem lida comigo, que a matéria à nossa volta, humana ou material, já não é a mesma.
O homem mudou. Por consequência, mudou o Mundo. Mudou o ar que respiramos.

Tenho falado (e pensado) muito na educação. A educação, esse maldito desafio cíclico e ambíguo que surge perante cada geração, testando a sua solidez e composição.


Está esquecida, embargada pela hermética procura dos intentos pessoais e profissionais dos pais, irmãos, professores, juristas, governantes e estadistas do século XXI. 


Pena que se mudem os tempos e se deteriorem educações, conceitos e almas.


Há 41 anos, culminava no nosso país a mais bonita aspiração do homem, do ser, a liberdade.


Nessa altura, era a música, a mais bela das artes produzida pelo homem, que espalhava energia, luz e esperança por entre nós Portugueses. Nessa fase ímpar da nossa história, eram canções como "Grândola Vila Morena", "E Depois do Adeus" ou "Uma Gaivota Voava, Voava" que nos arrepiavam. 


Eu próprio, que não a vivi na pele esse tempo, sou testemunha e sintoma dessa educação. Sinto-a, como se dela fizesse parte. Canto o Hino, com esplendor da alma e força da memória que cultivei.


Um pequeno à parte: Talvez por tempos como esses se tenha também produzido uma geração de músicos única, como nunca mais existiu, dentro e fora de fronteiras.


Mas, os tempos são outros, eu sei.


Não sei se a explicação está na globalização, nos estadistas, mercados, Schengen, banca, não sei.


Sei sim, que a educação mudou. O outrora valor do compromisso, é agora substituído pela emergência do interesse e tudo o que ele implica. O individuo do século XXI não está preocupado com ética ou moral. Isso são temas que se leccionam naquela cadeira de deontologia que se teve na faculdade e nada mais. Preocupa-lhe apenas a forma mais directa de percorrer o caminho que se propõe a fazer.


Sei que, as pessoas com que me cruzo na rua já não sabem agradecer a um carro que para para elas passarem. Que as pessoas que outrora caminhavam pela rua, ouvindo o cantar dos pássaros e contemplando toda a envolvência, que no fundo é o facto único e imensurável de estarem vivos, hoje apenas caminham, pois a sua vida está confinada a um smartphone e é nele que elas estão, respiram e sentem. Que artistas escrevem e cantam com violência, revolta (porque sim), obscenidade, perversidade, porque não encontram mais nenhuma outra maneira de conquistar a nossa atenção. Que governantes esqueceram o significado do termo "missão": Governar é apenas um ponto de descolagem pessoal e profissional para o que se segue nas suas vidas. Que respeito pela conduta se extinguiu em detrimento do respeito pelo medo. Que todos os dias, homens matam e morrem por crença religiosa, desprezando toda a sua condição singular e incomparável de seres humanos, cuja natureza brindou com uma oportunidade exclusiva de experiênciar este desafio fascinante que é a vida. Que gosto, dia após dia, mais dos animais do que qualquer outro ser neste planeta. 


Indigna-me profundamente que no meu país, onde só há 41 anos sabemos o que é a liberdade em toda a sua transversalidade, onde antes disso (e para isso) acontecer, morreram homens valentes, corajosos, elevando a voz, causa e aspiração de todo um povo que queria ser mais, tenham deixado o leme deste nosso país nas mãos de quem o quiser guiar. 


43% dos portugueses disseram isto. 


A expressão "não quero saber", foi o rosto de quase metade do nosso país.




Acorda Portugal