18 de abril de 2018

Artéria


Leve, levemente,
Se pôs a alma dormente.
Nem o dia que começou,
esta inércia agitou.

Ao espelho vejo um corpo,
mas sem escopo.
No silêncio uma alma,
sem calma.

Vivo desolado,
numa gnose turva,
de peito e sonhos crivados.

Imagino um livro, 
molhado e rasgado pela chuva.
Tão eu, tão verdade.

Nada mais do que se disse:
É este sangue, é cada batimento.

Nada mais que a verdade
mostram o desespero e a solidão.

Índoles que correm e se esquecem
nos vasos e artérias deste doente coração.

8 de março de 2018

Ao Contrário


Num planeta tão longe do seu âmago,
em que todos os dias nos falta o tempo,
mas nos sobram preocupações e focos de conflito,
eu quero atravessar.

Na outra margem da vida há algo mais.

Existem risos, calor e esperança.

Há florestas, árvores e raízes.

Há olhares, gestos e poucos juízes.

Há mar, marés e marinheiros.

Há amor, dor e sentimentos verdadeiros.

Uma existência sempre plena,

contrapõe-se às insuficiências,
à embriaguez e ao vazio deste lado.

Um dia como se fosse o dia,

deixará para trás os dias e
Sol que a alguns queima a pele,
aquecer-nos-á a alma.

Se estou ao contrário?
Cada vez mais.

7 de janeiro de 2018

Philanthropie


Já com os pés num novo ano,
tantas foram as vezes em que me detive,
naquele que terminou,
cercado de dúvidas e pensamentos voláteis.

Vezes em que olhei para este Mundo,

tomado de violência, falsidade e exterioridades perversas
e me senti longe de «casa»
e da natureza que perfilho.

Nessa vaga de convulsões e dubiedades

compreendi que,
desta minha mania de ser quem sou,
não disponho, ainda que com isso sofra.

Permaneço comprometido com dois esteios:

O de, independentemente do destino, proteger e estimar os meus;
Bem como de, atípicamente, conservar fenómenos mentais próprios.

Assim, comecei 2018:


Pegando em algo que me era destinado, 

e desse fruto me privado,
junto de alguém
um pouco de felicidade semeei.

15 de junho de 2017

Errado (e mais)


Não me sabia,
não me encontrei.
Naquela poesia,
em cada hora que pousei.

Senti tanto,
que de tanto não quero explicar,
Sofri (e sofro),
e disso faço questão de lembrar.

Dirias errado,
eu explicaria feitio.
Pedias que fosse passado,
e eu pedia quem me traiu.

Em tanto que leio,
em mais que não entendo.
Novo, o tempo que veio,
porém, velho, o que me fica moendo.

Mas, das sombras da multidão,
dos dias de névoa,
um anjo apareceu
e clareou a escuridão.

Na pele áspera e fria,
se encostou uma mão.
E lentamente, dia após dia,
chegou ao coração.

Do mais, 
soube aprender,
que de ti jamais
me disponho a perder.


Para ti

Para quem mais,
não podia ser.


23 de março de 2017

Uma Década


Num ano em que assinalo uma década desde a fundação deste meu «canto», tenho 5 considerações a fazer.

I

Quando empreendi este espaço, tudo era diferente.
Era um miúdo, sonhador, firme e determinado em conquistar o Mundo. Culminava os meus estudos secundários, tinha começado a trabalhar neste ano e tinha os meus planos em marcha para o que se seguia em detrimento daquele ciclo.
No utópico pensée de um garoto; Tinha o Mundo a meus pés.

II

Perto de cumprir 20 anos, experimentei uma série de transformações, umas intencionais, outras naturais, que me marcaram. No seio familiar, no meu meio social, nas relações, nas convicções, nas minhas motivações... O meu Mundo movia-se e eu, irrequieto, atirava-me à sua descoberta, custasse o que custasse.

III

O oficio que escolhi mudou muito de mim e, assim, da minha vida.
Cresci, vi e aprendi como nunca em 12 anos de escolaridade ou 21 de vida. Não existem palavras, voltas que se possam dar ou teorias sobre o que conheci nesta "vida". Tenho graças a ela, aprendizagens eternas, histórias únicas e uma percepção (muito) mais humilde de todos os tópicos que se atravessam no meu percurso.

IV

Os anos passaram e compreendi que queria mais. Queria algo tão simples, mas tão precioso, como independência. Não que não a tivesse, mas desejava-la na verdadeira asserção e, porque o sonho comanda a vida, fui atrás dela.
Esse caminho, espécie de investigação ego-cientifica, levou-me a outros pontos, a outras lições. A whole new world...
Um Homem é tão só carácter e responsabilidade, A assunção do eu - ser. Questionar, ir a jogo, suar e lutar. Responder e assumir.

V

Hoje, 2017, à imagem da sociedade actual, onde silêncios se misturam com uma violência amoral sem escala, a minha vida encontra retrato nesta ideia de cisão.
Por um lado, a assolação deste momento inerte, por outro as ideias, a construção retomada e o projecto de independência cada vez mais consolidado, descrevem um quadro de perfeito contraste.


Nas aprendizagens, nos frutos da diferença e sua constante indagação, a ponderação colhe os corolários da experiência humana



Volvida uma década, o mesmo miúdo, com dúvidas diferentes (e em multiplicada quantidade), continua na luta