17 de outubro de 2015

Os Tempos e Portugal


Tenho dito, a quem me ouve, a quem lida comigo, que a matéria à nossa volta, humana ou material, já não é a mesma.
O homem mudou. Por consequência, mudou o Mundo. Mudou o ar que respiramos.

Tenho falado (e pensado) muito na educação. A educação, esse maldito desafio cíclico e ambíguo que surge perante cada geração, testando a sua solidez e composição.


Está esquecida, embargada pela hermética procura dos intentos pessoais e profissionais dos pais, irmãos, professores, juristas, governantes e estadistas do século XXI. 


Pena que se mudem os tempos e se deteriorem educações, conceitos e almas.


Há 41 anos, culminava no nosso país a mais bonita aspiração do homem, do ser, a liberdade.


Nessa altura, era a música, a mais bela das artes produzida pelo homem, que espalhava energia, luz e esperança por entre nós Portugueses. Nessa fase ímpar da nossa história, eram canções como "Grândola Vila Morena", "E Depois do Adeus" ou "Uma Gaivota Voava, Voava" que nos arrepiavam. 


Eu próprio, que não a vivi na pele esse tempo, sou testemunha e sintoma dessa educação. Sinto-a, como se dela fizesse parte. Canto o Hino, com esplendor da alma e força da memória que cultivei.


Um pequeno à parte: Talvez por tempos como esses se tenha também produzido uma geração de músicos única, como nunca mais existiu, dentro e fora de fronteiras.


Mas, os tempos são outros, eu sei.


Não sei se a explicação está na globalização, nos estadistas, mercados, Schengen, banca, não sei.


Sei sim, que a educação mudou. O outrora valor do compromisso, é agora substituído pela emergência do interesse e tudo o que ele implica. O individuo do século XXI não está preocupado com ética ou moral. Isso são temas que se leccionam naquela cadeira de deontologia que se teve na faculdade e nada mais. Preocupa-lhe apenas a forma mais directa de percorrer o caminho que se propõe a fazer.


Sei que, as pessoas com que me cruzo na rua já não sabem agradecer a um carro que para para elas passarem. Que as pessoas que outrora caminhavam pela rua, ouvindo o cantar dos pássaros e contemplando toda a envolvência, que no fundo é o facto único e imensurável de estarem vivos, hoje apenas caminham, pois a sua vida está confinada a um smartphone e é nele que elas estão, respiram e sentem. Que artistas escrevem e cantam com violência, revolta (porque sim), obscenidade, perversidade, porque não encontram mais nenhuma outra maneira de conquistar a nossa atenção. Que governantes esqueceram o significado do termo "missão": Governar é apenas um ponto de descolagem pessoal e profissional para o que se segue nas suas vidas. Que respeito pela conduta se extinguiu em detrimento do respeito pelo medo. Que todos os dias, homens matam e morrem por crença religiosa, desprezando toda a sua condição singular e incomparável de seres humanos, cuja natureza brindou com uma oportunidade exclusiva de experiênciar este desafio fascinante que é a vida. Que gosto, dia após dia, mais dos animais do que qualquer outro ser neste planeta. 


Indigna-me profundamente que no meu país, onde só há 41 anos sabemos o que é a liberdade em toda a sua transversalidade, onde antes disso (e para isso) acontecer, morreram homens valentes, corajosos, elevando a voz, causa e aspiração de todo um povo que queria ser mais, tenham deixado o leme deste nosso país nas mãos de quem o quiser guiar. 


43% dos portugueses disseram isto. 


A expressão "não quero saber", foi o rosto de quase metade do nosso país.




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