Maia, 17 de Dezembro de 1943São já longos e numerosos os dias em que não tenho algumas gotas de água para que possa pelo menos esquecer me do deserto onde estou, ao lado de 3 homens, todos de arma às costas e perdidos por um sitio que nunca nenhum desejou conhecer...
Conseguimos os 4 escapar das grades onde nos torturavam e atormentavam varias vezes por dia, somos agora homens do nada, não sabemos onde estamos nem se estaremos por muitas mais horas...
Desde hà 5 dias atrás, eu e estes homens somos irmãos, dividimos não só o pão que ainda nos resta mas principalmente a corajem que nunca nos há de faltar...
Nestas horas de procura do que nunca aparece, no meio de tantos pensamentos, só desejava que quem para aqui nos mandou, conseguisse perceber o que somos hoje e a profunda tristeza e insignificância em que vivemos. Dos 4 aqui presentes, nenhum foi aquele que partiu sózinho, no coração todos trazemos alguém, uma familia, uma mulher, um filho...
Pelo homem que sou e pelos bravos que caminham ao meu lado, juro que tudo farei para que até ao final das minhas forças nunca pare de caminhar nem sonhar até encontrar quem mais amo e quem eu sei que nem por um segundo fecha os olhos e se esquece de mim...
Na esperança de que Deus ou um milagre reconham esta mensagem e a leiam atentamente, despeço-me com esperança e fé.
Maia
Artilharia Anti-Aérea n34 BH


