26 de outubro de 2018
11 de setembro de 2018
Caule
Se eu não for,
quem vai ser
que me inquieta pelo amanhecer?
Se o meu lugar não é este,
tens de largar a minha mão
e libertar o meu coração
Os meus sonhos
são de asas e mar,
de levar a vida a navegar
Não me reconheço aqui,
às voltas em ruas
que ainda são tuas
Não me quero neste corpo,
em roupas e em gestos
que castigam homens honestos
Só quero um beijo,
de adeus ou de liberdade,
de tudo quanto caiba numa verdade.
5 de setembro de 2018
Torpor
Condição de ter a sensibilidade,
geralmente associada a dor,
suprimida ou temporariamente removida.
Do que falo?
Anestesia.
São dias normais,
os que adormecem corações e
rompem velhas orações.
As saudades do futuro,
são a curiosidade do passado,
desprezado, ignorado.
Cores espalhadas,
histórias que fundaram instituições,
são hoje reduzidas a pixeis, fracções.
Passo a vida sobre a desordem,
persistindo e a tremer,
ensaiando e a escrever.
São as minhas horas, a minha verdade,
de tudo e de nada,
do lume de uma alma fascinada.
O escopo ganha talhe,
deflagra o rastilho
duma sociedade sempre sob o gatilho.
E a todos, mas a cada um, urge saber
onde e como vai acabar
esta anestesia que nos vai matar.
“As nossas discórdias têm a sua origem nas duas mais copiosas fontes de calamidade pública: a ignorância e a debilidade.”
S. Bolívar
22 de junho de 2018
Nestes dias
Embora os dedos tremam
no segundo em que tocam a terra,
o feixe das manhãs
é amplo, é longínquo.
E os cheiros?
E os sonhos?
E as coisas que ficaram por dizer
antes sequer de te conhecer?
Tenho escopo de pássaro
e alma de marinheiro.
É no céu que me guio
e no mar que me solvo.
Não sou vida,
se não índole, inspiração e liberdade.
Tão inócuas, tão desprovidas.
18 de abril de 2018
Artéria
Leve, levemente,
Se pôs a alma dormente.
Nem o dia que começou,
esta inércia agitou.
Ao espelho vejo um corpo,
mas sem escopo.
No silêncio uma alma,
sem calma.
Vivo desolado,
numa gnose turva,
de peito e sonhos crivados.
Imagino um livro,
molhado e rasgado pela chuva.
Tão eu, tão verdade.
Nada mais do que se disse:
É este sangue, é cada batimento.
Nada mais que a verdade
mostram o desespero e a solidão.
Índoles que correm e se esquecem
nos vasos e artérias deste doente coração.
nos vasos e artérias deste doente coração.
8 de março de 2018
Ao Contrário
Num planeta tão longe do seu âmago,
em que todos os dias nos falta o tempo,
mas nos sobram preocupações e focos de conflito,
eu quero atravessar.
Na outra margem da vida há algo mais.
Existem risos, calor e esperança.
Há florestas, árvores e raízes.
Há olhares, gestos e poucos juízes.
Há mar, marés e marinheiros.
Há amor, dor e sentimentos verdadeiros.
Uma existência sempre plena,
contrapõe-se às insuficiências,
à embriaguez e ao vazio deste lado.
Um dia como se fosse o dia,
deixará para trás os dias e
Sol que a alguns queima a pele,
aquecer-nos-á a alma.
Se estou ao contrário?
Cada vez mais.
7 de janeiro de 2018
Philanthropie
Já com os pés num novo ano,
tantas foram as vezes em que me detive,
naquele que terminou,
cercado de dúvidas e pensamentos voláteis.
Vezes em que olhei para este Mundo,
tomado de violência, falsidade e exterioridades perversas
e me senti longe de «casa»
e da natureza que perfilho.
Nessa vaga de convulsões e dubiedades
compreendi que,
desta minha mania de ser quem sou,
não disponho, ainda que com isso sofra.
Permaneço comprometido com dois esteios:
O de, independentemente do destino, proteger e estimar os meus;
Bem como de, atípicamente, conservar fenómenos mentais próprios.
Assim, comecei 2018:
Pegando em algo que me era destinado,
e desse fruto me privado,
junto de alguém
um pouco de felicidade semeei.
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