23 de março de 2017
Uma Década
Num ano em que assinalo uma década desde a fundação deste meu «canto», tenho 5 considerações a fazer.
I
Quando empreendi este espaço, tudo era diferente.
Era um miúdo, sonhador, firme e determinado em conquistar o Mundo. Culminava os meus estudos secundários, tinha começado a trabalhar neste ano e tinha os meus planos em marcha para o que se seguia em detrimento daquele ciclo.
No utópico pensée de um garoto; Tinha o Mundo a meus pés.
II
Perto de cumprir 20 anos, experimentei uma série de transformações, umas intencionais, outras naturais, que me marcaram. No seio familiar, no meu meio social, nas relações, nas convicções, nas minhas motivações... O meu Mundo movia-se e eu, irrequieto, atirava-me à sua descoberta, custasse o que custasse.
III
O oficio que escolhi mudou muito de mim e, assim, da minha vida.
Cresci, vi e aprendi como nunca em 12 anos de escolaridade ou 21 de vida. Não existem palavras, voltas que se possam dar ou teorias sobre o que conheci nesta "vida". Tenho graças a ela, aprendizagens eternas, histórias únicas e uma percepção (muito) mais humilde de todos os tópicos que se atravessam no meu percurso.
IV
Os anos passaram e compreendi que queria mais. Queria algo tão simples, mas tão precioso, como independência. Não que não a tivesse, mas desejava-la na verdadeira asserção e, porque o sonho comanda a vida, fui atrás dela.
Esse caminho, espécie de investigação ego-cientifica, levou-me a outros pontos, a outras lições. A whole new world...
Um Homem é tão só carácter e responsabilidade, A assunção do eu - ser. Questionar, ir a jogo, suar e lutar. Responder e assumir.
V
Hoje, 2017, à imagem da sociedade actual, onde silêncios se misturam com uma violência amoral sem escala, a minha vida encontra retrato nesta ideia de cisão.
Por um lado, a assolação deste momento inerte, por outro as ideias, a construção retomada e o projecto de independência cada vez mais consolidado, descrevem um quadro de perfeito contraste.
Nas aprendizagens, nos frutos da diferença e sua constante indagação, a ponderação colhe os corolários da experiência humana
Volvida uma década, o mesmo miúdo, com dúvidas diferentes (e em multiplicada quantidade), continua na luta
3 de novembro de 2016
Vivendo (e aprendendo)
Lembro-me de num episódio de infância,
em que terei ficado indignado com uma qualquer situação de injustiça que em mim se abateu,
de alguém mais velho, investido de uma experiência em muito superior,
sabiamente me dizer algo como:
"Não dês importância, verás que ao longo da vida passarás por situações muito piores do que essa".
Verdade, nua e crua.
Vivo e aprendo, é certo, mas parece que nunca o suficiente para o que ainda há de vir.
Parece por vezes que tudo está ao contrário.
Ou será que tudo está como tem de estar e ao contrário estou eu?
Sei lá.
Lá sei eu o que vai no ADN destas gentes.
Lá sei eu onde andam Homens e Mulheres de verdade.
Só sei que pisam, e sujam, e esquecem, e cortam relações com a viúva da Integridade.
Hoje, em mais uma noite desta «vida» que escolhi,
em mais uma noite que me mantenho alerta,
para que todos os outros, que nem desconfiam da existência de Homens como eu,
possam ter uma noite de descanso e paz nas suas casas,
voltei a ter um destes embates,
que nos desassossegam, neutralizam e estremecem o espírito.
A vida não é justa.
Se não o é para mim, menos é para um Sírio ou um Venezuelano.
Mas raios partam se não há podridão maior que aquela que o ser humano permite cultivar dentro si e sem qualquer inibição ou pudor a deixa sair, contaminando o ar que é de todos.
Mais brio.
Mais ética.
Menos sujeitos de interesses.
5 de março de 2016
Sui Generis
Prefiro não pensar em ti
Gosto da quietação de um final de dia
Prezo a paz da minha solidão interior
Foram anos gélidos e impiedosos
de mordaça na alma e temor pelos ossos
Sui generis, de resto
Para quê?
De que valia?
Jamais nos converteremos
em algo que não nos corre pelo sangue
A mim corre mais do que o principio
basilar da manutenção da compleição humana
Há por aqui vida, temperamento, energia,
cuidado, alegria e amor
E eu estou bem assim
17 de outubro de 2015
Os Tempos e Portugal
Tenho dito, a quem me ouve, a quem lida comigo, que a matéria à nossa volta, humana ou material, já não é a mesma.
O homem mudou. Por consequência, mudou o Mundo. Mudou o ar que respiramos.
Tenho falado (e pensado) muito na educação. A educação, esse maldito desafio cíclico e ambíguo que surge perante cada geração, testando a sua solidez e composição.
Está esquecida, embargada pela hermética procura dos intentos pessoais e profissionais dos pais, irmãos, professores, juristas, governantes e estadistas do século XXI.
Pena que se mudem os tempos e se deteriorem educações, conceitos e almas.
Há 41 anos, culminava no nosso país a mais bonita aspiração do homem, do ser, a liberdade.
Nessa altura, era a música, a mais bela das artes produzida pelo homem, que espalhava energia, luz e esperança por entre nós Portugueses. Nessa fase ímpar da nossa história, eram canções como "Grândola Vila Morena", "E Depois do Adeus" ou "Uma Gaivota Voava, Voava" que nos arrepiavam.
Eu próprio, que não a vivi na pele esse tempo, sou testemunha e sintoma dessa educação. Sinto-a, como se dela fizesse parte. Canto o Hino, com esplendor da alma e força da memória que cultivei.
Um pequeno à parte: Talvez por tempos como esses se tenha também produzido uma geração de músicos única, como nunca mais existiu, dentro e fora de fronteiras.
Mas, os tempos são outros, eu sei.
Não sei se a explicação está na globalização, nos estadistas, mercados, Schengen, banca, não sei.
Sei sim, que a educação mudou. O outrora valor do compromisso, é agora substituído pela emergência do interesse e tudo o que ele implica. O individuo do século XXI não está preocupado com ética ou moral. Isso são temas que se leccionam naquela cadeira de deontologia que se teve na faculdade e nada mais. Preocupa-lhe apenas a forma mais directa de percorrer o caminho que se propõe a fazer.
Sei que, as pessoas com que me cruzo na rua já não sabem agradecer a um carro que para para elas passarem. Que as pessoas que outrora caminhavam pela rua, ouvindo o cantar dos pássaros e contemplando toda a envolvência, que no fundo é o facto único e imensurável de estarem vivos, hoje apenas caminham, pois a sua vida está confinada a um smartphone e é nele que elas estão, respiram e sentem. Que artistas escrevem e cantam com violência, revolta (porque sim), obscenidade, perversidade, porque não encontram mais nenhuma outra maneira de conquistar a nossa atenção. Que governantes esqueceram o significado do termo "missão": Governar é apenas um ponto de descolagem pessoal e profissional para o que se segue nas suas vidas. Que respeito pela conduta se extinguiu em detrimento do respeito pelo medo. Que todos os dias, homens matam e morrem por crença religiosa, desprezando toda a sua condição singular e incomparável de seres humanos, cuja natureza brindou com uma oportunidade exclusiva de experiênciar este desafio fascinante que é a vida. Que gosto, dia após dia, mais dos animais do que qualquer outro ser neste planeta.
Indigna-me profundamente que no meu país, onde só há 41 anos sabemos o que é a liberdade em toda a sua transversalidade, onde antes disso (e para isso) acontecer, morreram homens valentes, corajosos, elevando a voz, causa e aspiração de todo um povo que queria ser mais, tenham deixado o leme deste nosso país nas mãos de quem o quiser guiar.
43% dos portugueses disseram isto.
A expressão "não quero saber", foi o rosto de quase metade do nosso país.
Acorda Portugal
5 de agosto de 2015
Blindagem
Num jeito e imagem diferente daquilo que têm sido as últimas coisas que escrevo neste espaço, hoje, dia em que regresso às minhas funções profissionais, ainda que com relevante condicionamento físico, depois de 1 mês de recuperação, registo algo que jamais morrerá com o tempo.
Faço-o aqui, no meu blog, no meu lugar.
Dia 2 de Julho de 2015, era o primeiro dia de umas férias que eu ansiava.
Férias que ansiava tanto quanto precisava. Para descansar o espírito e viajar a mente.
Nesse mesmo dia, ficou combinado ir até Sintra, Colares, ter com o meu irmão de 16 anos, para irmos até uma praia relaxar e brincar um pouco, como sempre fizemos.
Assim foi. Fomos até à praia do Magoito, costa de Sintra.
Escolhemos um lugar afastado da confusão, calminho, com espaço para nós e para as nossas brincadeiras.
Depois do sol quente a bater na pele, só apetece mesmo contrastar com um mergulho na água gelada de Sintra... ou não! Mas lá fomos até ao Glacial Árctico, em busca desse refresco (garantido).
Estava bandeira amarela e umas ondas jeitosas para ficar sem calções de banho! Mas nós lá nos importamos com isso, ah!
Lá andávamos, a desafiá-las, furando-as, para não enrolar claro, mas a cantar, em alto e bom som, vigorando toda a energia e alegria que sentíamos ali, naquele momento.
Na minha prudência de irmão mais velho, a certa altura terei dito que chegava de ondas e estendermos-nos na toalha seria o programa que se seguia, mas ele, a desfrutar das ondas vibrantes do Atlântico, pediu para ficarmos, apenas mais um bocadinho, e eu fiquei.
Repeti a sugestão. Ele repetiu a sua vontade e entusiasmo. Eu fiquei.
Navegando naquele mar, já longe do sitio onde tínhamos pé, mas sempre na nossa cantoria, sinto um estalo no meu ombro direito. Já era!
Fiquei sem ombro, sem braço, sem remo.
Parecia o começo de um filme. Vendo bem, parecia mais o fim daquilo que é real.
Lutei, tanto psicológica como fisicamente, mas de pouco valia. Ali precisava mesmo era do meu braço de volta, daquele que me traiu na boca do lobo.
Passei momentos de aflição, sofri, vi-me no rodapé de um telejornal, mas mantive a minha vontade de voltar a por os meus pés em terra firme e sair daquele filme que eu não quis ver. Mas isso, essa vontade, não faria milagres e por mais forte que fosse, não vencia as leis da física que naquele momento estavam todas contra mim.
A meu favor tinha o meu irmão.
Num cenário em que nunca me tinha visto, e já estive em alguns que quase me rebentaram o peito de tanto porem o meu coração a bater, o meu irmão apareceu. Também lutando contra um mar que subitamente se enervou, ele veio até mim. Não me conseguiu agarrar como eu precisava, o que naquelas circunstâncias nem o Mcnamara conseguia, mas eu senti a sua coragem, a sua adrenalina ali e acima de tudo, bem lá em cima mesmo, o seu companheirismo.
Isso foi tudo. O facto dele ter dividido aquela luta que não tinha de ser dele comigo, foi tudo.
Lutei ainda mais, matei a sede de água del mar para os próximos vinte anos, bati naquelas rochas macias e delicadas, passei dois, três minutos difíceis, como nunca tinha passado. No final e viajando um mês desde o episódio, estou aqui, a escrever este texto, graças à natureza que me deu mais um oportunidade, mas, principalmente, graças ao meu irmão que me deu um orgulho que nem aquele Oceano onde eu ia terminando a minha passagem por esta vida, serve como termo de comparação para a sua dimensão.
Sim. Se o meu orgulho fosse passível de observação, visto da lua, não havia Atlântico ou Pacifico que chegassem para ele.
Regista isso.
O bebé que eu conheci numa incubadora, naquela maternidade que hoje já nem existe, que adormeci várias vezes com a minha voz (de rouxinol), que levei à creche, que tomei conta, que brinquei tantas vezes, que discuti, que ensinei, que eduquei (ou tentei fazê-lo), com quem também cresci e escrevi a minha história, foi naquele dia, naqueles minutos duros, o meu herói.
A coragem que enfrenta o medo, é uma coragem maior.
É aquela que para além de vencer o perigo, vence a blindagem da alma, e essa só os verdadeiros e bons Homens a alcançam.
Para ti,
com respeito e reconhecimento.
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