7 de agosto de 2019
Os nossos dias
Ouvia hoje, John Lennon.
A música, redentora da alma, "Imagine".
O desvairo de pensar que o nome da artista poderá soar familiar às novas gerações,
não passa disso mesmo: Um desvairo.
Sossega-me, pelo menos, crer que detém esse efeito o nome da canção.
Sem querer encarnar a pele de um velho do Restelo, mas sem salvação aparente dessa qualificação,
hoje, como em outras pontuais ocasiões,
perdi-me nesta ideia melindrosa, aqui e agora desencarcerada.
John Lennon, a par de uma legião de notáveis artistas,
faz hoje muito mais sentido
e não é de ordem política
a razão pelo qual aqui o trago.
O tecido musical que separa a «nova música» daquela que hoje resgato,
é muito mais amplo do que o momento cronológico, a qualidade e meios da gravação ou mesmo as gadelhas compridas.
A mensagem. A emissão emocional. O rugido de revolta. O ímpeto hostil. Todos eles, são matéria nova.
Ora, quando percorremos um feed de notícias ou assistimos a um telejornal, raras não são as vezes em que somos encarados por imagens de violência, cólera e muito pouca humanidade, por entre outros de nós, iguais a nós.
O Mundo talvez precise de mais Lennons, Marleys e outros tantos que não tinham paralelo na habilidade de espalhar a compaixão e benevolência pelo próximo.
Mais, muito mais, pelo que nos une. Sempre menos, pelo que nos separa.
5 de março de 2019
Aço
Hoje,
num apontamento breve,
mas de comoção justa,
traço sobre um tal.
É lhe cabido,
tal respeito e veneração,
que pobre é a fórmula verbal
que o tenta conter.
Perene,
É o gesto amigo,
que atende, ouve e singulariza
um homem leal.
Fortúnio,
daquele que cruza o seu caminho
com o de um ser inusitado,
em predicados e notáveis intentos.
Para si,
São estas parcas locuções,
que nada mais forjam,
se não o tecido desta amizade.
De Aço,
é o liame construído,
entre dois caminhantes solitários
num Mundo esparso.
26 de outubro de 2018
11 de setembro de 2018
Caule
Se eu não for,
quem vai ser
que me inquieta pelo amanhecer?
Se o meu lugar não é este,
tens de largar a minha mão
e libertar o meu coração
Os meus sonhos
são de asas e mar,
de levar a vida a navegar
Não me reconheço aqui,
às voltas em ruas
que ainda são tuas
Não me quero neste corpo,
em roupas e em gestos
que castigam homens honestos
Só quero um beijo,
de adeus ou de liberdade,
de tudo quanto caiba numa verdade.
5 de setembro de 2018
Torpor
Condição de ter a sensibilidade,
geralmente associada a dor,
suprimida ou temporariamente removida.
Do que falo?
Anestesia.
São dias normais,
os que adormecem corações e
rompem velhas orações.
As saudades do futuro,
são a curiosidade do passado,
desprezado, ignorado.
Cores espalhadas,
histórias que fundaram instituições,
são hoje reduzidas a pixeis, fracções.
Passo a vida sobre a desordem,
persistindo e a tremer,
ensaiando e a escrever.
São as minhas horas, a minha verdade,
de tudo e de nada,
do lume de uma alma fascinada.
O escopo ganha talhe,
deflagra o rastilho
duma sociedade sempre sob o gatilho.
E a todos, mas a cada um, urge saber
onde e como vai acabar
esta anestesia que nos vai matar.
“As nossas discórdias têm a sua origem nas duas mais copiosas fontes de calamidade pública: a ignorância e a debilidade.”
S. Bolívar
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