24 de agosto de 2019

A nossa vez


Tenho para mim,
e cimento-o com o transcorrer do tempo,
que a nossa passagem pelo Mundo
reflete muito mais do que uma experiência biológica.

O fenómeno que coloca o planeta sob as rédeas do Homem,
é tão mutável e efémero
como aquele que separa a vida da morte.
Hoje vivemos. Amanhã, só o curso da vida o determinará.

O Mundo que encontrámos,
quando nós próprios nos encontrámos enquanto seres,
não foi carreado até nós para nosso exclusivo usufruto ou regozijo,
alheio às gerações sequentes e devasso com as precedentes.

Foi sim, a nossa vez.

Tudo o que nos antecede e que, sejamos diretos,
é tão maior que o síndrome de egoísmo que tomou os nossos dias,
reclama um exercício profundo de continuidade,
da nossa parte, enquanto tecido da comunidade.

Só a união e a verdade,
em torno de um desígnio para a humanidade,
podem assegurar um horizonte de esperança,
ideais de justiça e a paz como herança.

Entre a mentira e as costas voltadas,
haverão sempre as imagens de um pulmão que arde,
de irmãos que se atemorizam
ou de uma alegoria, atordoante, que nos impõem para a eternidade.

Haverá sempre outro glaciar a derreter,
milhões de migrantes com a vida suspensa,
intimação nuclear, contrainformação, maus políticos,
fome e chacino dos mais fracos.

A harmonia entre os membros da família humana
pressupõe um compromisso implícito e perpétuo
entre todos os que partiram, os que ainda não encarnaram
e cada um de nós.

e esta,
é a nossa vez.

7 de agosto de 2019

Os nossos dias


Ouvia hoje, John Lennon.
A música, redentora da alma, "Imagine".

O desvairo de pensar que o nome da artista poderá soar familiar às novas gerações,
não passa disso mesmo: Um desvairo.

Sossega-me, pelo menos, crer que detém esse efeito o nome da canção.

Sem querer encarnar a pele de um velho do Restelo, mas sem salvação aparente dessa qualificação,
hoje, como em outras pontuais ocasiões,
perdi-me nesta ideia melindrosa, aqui e agora desencarcerada.

John Lennon, a par de uma legião de notáveis artistas,
faz hoje muito mais sentido
e não é de ordem política
a razão pelo qual aqui o trago.

O tecido musical que separa a «nova música» daquela que hoje resgato,
é muito mais amplo do que o momento cronológico, a qualidade e meios da gravação ou mesmo as gadelhas compridas.

A mensagem. A emissão emocional. O rugido de revolta. O ímpeto hostil. Todos eles, são matéria nova.

Ora, quando percorremos um feed de notícias ou assistimos a um telejornal, raras não são as vezes em que somos encarados por imagens de violência, cólera e muito pouca humanidade, por entre outros de nós, iguais a nós.

O Mundo talvez precise de mais Lennons, Marleys e outros tantos que não tinham paralelo na habilidade de espalhar a compaixão e benevolência pelo próximo.

Mais, muito mais, pelo que nos une. Sempre menos, pelo que nos separa.

5 de março de 2019

Aço


Hoje, 
num apontamento breve,
mas de comoção justa,
traço sobre um tal.

É lhe cabido, 
tal respeito e veneração,
que pobre é a fórmula verbal
que o tenta conter.

Perene,
É o gesto amigo,
que atende, ouve e singulariza
um homem leal.

Fortúnio,
daquele que cruza o seu caminho
com o de um ser inusitado,
em predicados e notáveis intentos.

Para si,
São estas parcas locuções,
que nada mais forjam,
se não o tecido desta amizade.

De Aço,
é o liame construído,
entre dois caminhantes solitários
num Mundo esparso.


26 de outubro de 2018

Mais


Só uma vez,
um breve minuto.

Dois suspiros,
o teu perfume.

Três erros,
noite fora.


11 de setembro de 2018

Caule


Se eu não for,
quem vai ser
que me inquieta pelo amanhecer?

Se o meu lugar não é este,

tens de largar a minha mão
e libertar o meu coração

Os meus sonhos

são de asas e mar,
de levar a vida a navegar

Não me reconheço aqui,

às voltas em ruas
que ainda são tuas

Não me quero neste corpo,

em roupas e em gestos
que castigam homens honestos

Só quero um beijo,

de adeus ou de liberdade,
de tudo quanto caiba numa verdade.